• ANTES DA CONSCIÊNCIA, O AMOR

  • ANTES DA CONSCIÊNCIA, O AMOR

    ANTES DA CONSCIÊNCIA, O AMOR

    E se o Absoluto de Nisargadatta e o Deus de Jesus apontassem para a mesma Realidade?

    Antes da Consciência, o Amor parte de uma tese simples e radical:

    o Absoluto é Deus, ou Amor.

    O livro aproxima a investigação de Nisargadatta, a tradição do Advaita e a visão espiritual do Curso em Milagres para perguntar:

    Quem somos antes do corpo, da história, da personalidade e até mesmo do “Eu Sou”?

    A resposta proposta não é uma nova identidade, mas aquilo que permanece quando todas as identidades desaparecem.

    O livro também enfrenta diretamente a culpa, o perdão, a ideia de separação e a relação entre o Eu Sou e o Cristo, entendido como aquilo que jamais se separou de Deus.

    E não esconde sua principal divergência com Nisargadatta: ele provavelmente recusaria chamar o Absoluto de Amor. O autor assume essa diferença e faz sua escolha:

    “Prefiro acreditar no Amor, e chamar aquilo de Deus.”

    Para quem estuda Nisargadatta, Jesus, Advaita e Um Curso em Milagres, este é um convite a olhar para além das palavras e perguntar:

    Quando tudo o que penso ser desaparece, o que permanece?

    ANTES DA CONSCIÊNCIA, O AMOR

    Você não precisa ir até lá.
    Não há distância.

  • O Belo Cavalo Marrom: Um Sonho de Liberdade

    O Belo Cavalo Marrom: Um Sonho de Liberdade

    Sobre os sonhos, a beleza, a consciência e o mistério de ser.

    Alguns sonhos desaparecem assim que despertamos. Outros deixam uma única imagem, tão bela que permanece viva em nossa consciência.

    Sonhei com um lindo cavalo marrom.

    O cavalo há muito é associado à liberdade, à vitalidade, à força e à energia misteriosa da vida. Sua beleza não está apenas na forma física, mas na impressão de algo poderoso e naturalmente livre.

    A cor marrom evoca a terra, a estabilidade e a simplicidade da natureza. Juntos, o cavalo e sua cor sugerem uma união intrigante: liberdade e enraizamento, movimento e quietude, força e serenidade.

    Mas talvez o significado mais profundo de um sonho não esteja em seus símbolos.

    E se o sonho estiver nos convidando a questionar o próprio sonhador?

    Nos ensinamentos não duais de Nisargadatta Maharaj, a investigação essencial não é sobre aquilo que aparece na consciência, mas sobre a natureza da própria consciência.

    O cavalo aparece. O sonho se desenrola. Depois, ambos desaparecem.

    Entretanto, algo parece permanecer: a consciência na qual a experiência foi conhecida.

    Um Curso em Milagres oferece outra perspectiva. Ensina que o mundo que percebemos é semelhante a um sonho e que o despertar envolve uma profunda transformação da percepção.

    Nessa perspectiva, o belo cavalo não precisa prever acontecimentos nem transmitir uma mensagem sobrenatural. Pode simplesmente tornar-se um símbolo por meio do qual a mente se recorda da beleza, da inocência e da paz.

    Não existe um dicionário universal capaz de revelar com certeza o significado de um sonho. Seu sentido é inseparável da experiência daquele que sonha.

    Talvez a coisa mais bela nesse cavalo não fosse aquilo que ele representava, mas a própria beleza.

    Antes da interpretação, antes do pensamento, antes que a mente começasse a procurar significados, havia simplesmente uma imagem aparecendo na consciência.

    E talvez o despertar espiritual comece precisamente aí: quando deixamos de tentar possuir ou explicar cada experiência e permitimos que ela seja o que é.

    O cavalo veio e se foi. O sonho terminou. Mas o que é que conhece tanto o sonho quanto o seu término?

    Essa é a pergunta que merece ser contemplada.

  • The Beautiful Brown Horse: A Dream of Freedom

    The Beautiful Brown Horse: A Dream of Freedom

    On dreams, beauty, consciousness, and the mystery of being.

    Some dreams disappear as soon as we awaken. Others leave behind a single image, so beautiful that it remains alive in our consciousness.

    I dreamed of a beautiful brown horse.

    The horse has long been associated with freedom, vitality, strength, and the mysterious energy of life. Its beauty lies not merely in its physical form, but in the impression of something powerful and naturally free.

    The color brown evokes the earth, stability, and the simplicity of nature. Together, the horse and its color suggest an intriguing union: freedom and groundedness, movement and stillness, strength and serenity.

    But perhaps the deepest meaning of a dream is not found in its symbols.

    What if the dream is inviting us to question the dreamer?

    In the nondual teachings of Nisargadatta Maharaj, the essential inquiry is not what appears in consciousness, but the nature of consciousness itself.

    The horse appears. The dream unfolds. Then both disappear.

    Yet something seems to remain: the awareness in which the experience was known.

    A Course in Miracles offers another perspective. It teaches that the world we perceive is like a dream and that awakening involves a profound transformation of perception.

    From this perspective, the beautiful horse need not predict anything or convey a supernatural message. It can simply become a symbol through which the mind remembers beauty, innocence, and peace.

    There is no universal dictionary that can reveal with certainty what a dream means. Its significance is inseparable from the experience of the person dreaming.

    Perhaps the most beautiful thing about this horse was not what it represented, but the beauty itself.

    Before interpretation, before thought, before the mind began searching for meaning, there was simply an image appearing in awareness.

    And perhaps spiritual awakening begins precisely there: when we cease trying to possess or explain every experience and allow it to be what it is.

    The horse came and went. The dream ended. But what is it that knows both the dream and its ending?

    That is the question worth contemplating.

  • Dois homens, uma palavra

    Dois homens, uma palavra

    Um vendia cigarros numa ruela de Bombaim. O outro era carpinteiro numa aldeia da Galileia. Entre os dois há dezenove séculos, línguas diferentes e mundos que nunca se tocaram.

    Sri Nisargadatta Maharaj (1897–1981) foi um mestre indiano do Advaita, palavra que quer dizer “não-dois”: a ideia de que, no fundo, só existe uma realidade. Jesus de Nazaré não falou em Advaita. Falou em Pai, em Reino, em amor.

    E, no entanto, os dois apontaram para a mesma coisa simples, tão próxima que quase ninguém repara nela: o fato de ser. As duas palavras mais curtas de qualquer língua. Eu sou.

    Este texto não quer dizer que os dois ensinaram a mesma doutrina. Quer apenas colocá-los lado a lado e ver o que acontece quando um ilumina o outro.

    “Antes que Abraão existisse, Eu Sou”

    No Evangelho de João, Jesus diz uma frase que escandalizou quem ouvia: “Antes que Abraão existisse, Eu Sou” (João 8:58). Ele não diz “eu era”. Diz “Eu Sou”, no presente, como quem fala de algo fora do tempo.

    A frase ecoa a resposta de Deus a Moisés na sarça ardente: “Eu Sou o que Sou” (Êxodo 3:14). E ecoa também o Salmo: “Aquietai-vos, e sabei que Eu Sou Deus” (Salmo 46:10).

    Nisargadatta chegou ao mesmo ponto por outro caminho. Seu mestre lhe deu uma única instrução: ficar com a sensação de “eu sou”. Não “eu sou fulano”, nem “eu sou isto ou aquilo”. Apenas o sentir-se existindo, antes de qualquer pensamento. Ele obedeceu por cerca de três anos, e isso bastou.

    Lidos juntos, os dois se iluminam. O “Eu Sou” de Jesus não é o nome do homem de Nazaré. É aquilo que já era antes de Abraão, antes do tempo. E o “eu sou” de Nisargadatta não é o vendedor de cigarros. É o que está presente em qualquer um que diga, em silêncio: eu existo.

    O Pai e o Absoluto

    Para Nisargadatta, o “eu sou” ainda não é o fim da viagem. É a porta. Antes do “eu sou” existe o Absoluto, que ele chamava de Parabrahman (“o que está além de tudo”): aquilo que não precisa nem saber que existe. O “eu sou” nasce dele, e por ele se volta para ele.

    Jesus fala de um jeito curiosamente parecido. Ele diz “Eu sou a porta” (João 10:9). Diz “Eu e o Pai somos um” (João 10:30). E diz também “o Pai é maior do que eu” (João 14:28).

    As duas frases parecem se contradizer, até que se lê Nisargadatta. O “Eu Sou” é um com a Fonte, e ao mesmo tempo aponta para além de si, para algo maior e anterior. É nesse sentido que se pode ler, de forma contemplativa, outra frase: “Ninguém vem ao Pai senão por mim” (João 14:6). Ninguém chega à Fonte a não ser passando pelo simples “eu sou”.

    Perder a vida para encontrá-la

    “Quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á” (Mateus 16:25). E ainda: “Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto” (João 12:24).

    Nisargadatta diria que o que morre não é você. É a ideia de ser uma pessoa separada, presa a um corpo, com uma história que começa no nascimento e termina no túmulo. Ele insistia que aquilo que realmente somos nunca nasceu e, portanto, não pode morrer.

    Os dois falam da mesma morte: a do falso, não a do verdadeiro. O grão perde a casca. O que estava dentro dela sempre esteve vivo.

    O amor como ponte

    Nisargadatta deixou uma frase que muita gente guarda: a sabedoria mostra que eu não sou nada; o amor mostra que eu sou tudo; e entre os dois a vida corre. Ele não escolheu entre o vazio e o amor. Ficou com os dois.

    Jesus resumiu toda a Lei em amar a Deus e “amar o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22:39). Lido à luz do “Eu Sou”, o “como a ti mesmo” ganha um sentido novo. Se o mesmo “Eu Sou” está em mim e em você, o próximo não é outro. É o mesmo ser, olhando por outros olhos. E “o Reino de Deus está dentro de vós” (Lucas 17:21) porque não há outro lugar onde ele possa estar.

    Na prática, os dois pedem quase a mesma coisa:

    • Ficar quieto alguns minutos e sentir “eu sou”, sem acrescentar nada.
    • Notar que esse “eu sou” não tem idade, nem nome, nem história.
    • Ao encontrar outra pessoa, lembrar que o mesmo “Eu Sou” está ali também.

    Um vendedor de cigarros e um carpinteiro. Nenhum dos dois era teólogo. Os dois apenas olharam para o que estava mais perto, e viram ali a eternidade.

  • Two men, one word

    Two men, one word

    One sold cigarettes in a narrow lane in Bombay. The other was a carpenter in a village in Galilee. Nineteen centuries lie between them, along with different languages and worlds that never touched.

    Sri Nisargadatta Maharaj (1897–1981) was an Indian teacher of Advaita, a word meaning “not-two”: the idea that, at bottom, there is only one reality. Jesus of Nazareth never spoke of Advaita. He spoke of the Father, the Kingdom, and love.

    And yet both pointed to the same simple thing, so close that hardly anyone notices it: the fact of being. The two shortest words in any language. I am.

    This piece does not claim the two taught the same doctrine. It only places them side by side to see what happens when each one sheds light on the other.

    “Before Abraham was, I am”

    In the Gospel of John, Jesus says something that shocked his listeners: “Before Abraham was, I am” (John 8:58). He does not say “I was.” He says “I am,” in the present tense, as if speaking of something outside time.

    The words echo God’s answer to Moses at the burning bush: “I AM THAT I AM” (Exodus 3:14). They echo the Psalm as well: “Be still, and know that I am God” (Psalm 46:10).

    Nisargadatta reached the same point by another road. His teacher gave him a single instruction: stay with the sense “I am.” Not “I am so-and-so,” not “I am this or that.” Just the bare feeling of existing, before any thought. He followed it for about three years, and that was enough.

    Read together, each lights up the other. Jesus’ “I am” is not the name of the man from Nazareth. It is what already was before Abraham, before time. And Nisargadatta’s “I am” is not the cigarette seller. It is what is present in anyone who says, silently: I exist.

    The Father and the Absolute

    For Nisargadatta, “I am” is not yet the end of the journey. It is the door. Before “I am” there is the Absolute, which he called Parabrahman (“that which is beyond everything”): what does not even need to know that it exists. “I am” arises from it, and through it returns to it.

    Jesus speaks in a strikingly similar way. He says “I am the door” (John 10:9). He says “I and my Father are one” (John 10:30). And he also says “my Father is greater than I” (John 14:28).

    These sayings seem to contradict each other until you read Nisargadatta. “I am” is one with the Source, and at the same time it points beyond itself, to something greater and prior. In that light one can read, contemplatively, another saying: “No man cometh unto the Father, but by me” (John 14:6). No one reaches the Source except by passing through the simple “I am.”

    Losing life to find it

    “Whosoever will lose his life for my sake shall find it” (Matthew 16:25). And again: “Except a corn of wheat fall into the ground and die, it abideth alone: but if it die, it bringeth forth much fruit” (John 12:24).

    Nisargadatta would say that what dies is not you. It is the idea of being a separate person, tied to a body, with a story that begins at birth and ends in the grave. He insisted that what we really are was never born, and so cannot die.

    Both speak of the same death: the death of the false, not of the true. The grain loses its husk. What was inside was alive all along.

    Love as the bridge

    Nisargadatta left a saying many people treasure: wisdom shows that I am nothing; love shows that I am everything; and between the two, life flows. He did not choose between emptiness and love. He kept both.

    Jesus summed up the whole Law as loving God and loving “thy neighbour as thyself” (Matthew 22:39). Read in the light of “I am,” the words “as thyself” take on a new meaning. If the same “I am” lives in me and in you, my neighbor is not someone else. It is the same being, looking out through other eyes. And “the kingdom of God is within you” (Luke 17:21) because there is nowhere else for it to be.

    In practice, both ask almost the same thing:

    • Sit quietly for a few minutes and feel “I am,” adding nothing to it.
    • Notice that this “I am” has no age, no name, no story.
    • When you meet another person, remember that the same “I am” is there too.

    A cigarette seller and a carpenter. Neither was a theologian. Both simply looked at what was nearest, and found eternity there.

  • O PERDÃO: O RETORNO SILENCIOSO AO AMOR

    O PERDÃO: O RETORNO SILENCIOSO AO AMOR

    No UCEM, o perdão começa com a disposição de questionar o significado que atribuímos ao que aconteceu. Geralmente, pensamos que perdoar é reconhecer a culpa de alguém e depois decidir, generosamente, relevá-la. Entretanto, isso pode manter o julgamento intacto: o outro continua culpado, enquanto nos tornamos aquele que concede a absolvição.

    O Curso nos convida a olhar mais profundamente, para a maneira como a condenação prende nossa própria mente ao sofrimento. Quando revisitamos repetidamente uma ofensa, podemos começar a transformá-la em parte de nossa identidade. O passado se torna a lente através da qual enxergamos a nós mesmos, nossos relacionamentos e o futuro.

    O perdão abre um pequeno espaço dentro dessa certeza: talvez meu julgamento não conte toda a verdade sobre nenhum de nós.

    Isso não exige fingir que algo doloroso nunca aconteceu. Podemos reconhecer o dano, estabelecer limites e tomar as providências adequadas enquanto nos dispomos a abandonar o ódio.

    Na perspectiva espiritual do Curso, nossa identidade mais profunda permanece como Deus a criou; nenhum erro pode transformar essa identidade em algo indigno de amor. O perdão nos ensina, gradualmente, a enxergar além do erro sem negar a necessidade de correção.

    A prática começa exatamente onde estamos. Percebemos o ressentimento, o desejo de punir ou a insistência em ter razão e os levamos ao Espírito Santo sem nos condenarmos por senti-los.

    Uma oração interior simples poderia ser: Ajuda-me a olhar para isso de outra maneira. Estou disposto a aprender um caminho mais gentil.

    Não precisamos fabricar amor nem nos obrigar a sentir serenidade. Nossa disponibilidade permite que outra interpretação se torne possível.

    Cada vez que soltamos um julgamento, mesmo por um instante, afrouxamos o domínio do passado sobre o presente. O outro já não precisa mudar para que possamos começar esse trabalho interior.

    O perdão se torna um retorno silencioso ao amor que o julgamento havia ocultado de nossa consciência.

  • Post sem título 515

    FORGIVENESS: THE QUIET RETURN TO LOVE

    In A Course in Miracles, forgiveness begins with a willingness to question the meaning we have given to what happened. We usually think that forgiving means recognizing someone’s guilt and then generously deciding to overlook it. Yet this can leave the judgment intact: the other person remains guilty, while we become the one who grants a pardon.

    The Course invites us to look more deeply, at the way condemnation binds our own mind to suffering. When we repeatedly revisit an offense, we may begin to make it part of our identity. The past becomes the lens through which we see ourselves, our relationships, and the future.

    Forgiveness opens a little space within that certainty: perhaps my judgment does not tell the whole truth about either of us.

    This does not require pretending that something painful never happened. We can acknowledge harm, establish boundaries, and take appropriate action while becoming willing to release hatred.

    Within the Course’s spiritual framework, our deepest identity remains as God created it; no mistake can turn that identity into something unworthy of love. Forgiveness gradually teaches us to see beyond the mistake without denying the need for correction.

    The practice begins wherever we actually are. We notice the resentment, the desire to punish, or the insistence on being right, and bring it to the Holy Spirit without condemning ourselves for feeling it.

    A simple inward prayer might be: Help me look at this differently. I am willing to learn a gentler way.

    We do not have to manufacture love or force ourselves into serenity. Our willingness allows another interpretation to become possible.

    Each time we release a judgment, even briefly, we loosen the past’s hold on the present. The other person no longer has to change before we can begin this inner work.

    Forgiveness becomes a quiet return to the love that judgment had hidden from our awareness.

  • Antes da Consciência, o Amor: aquilo que não precisa de um eu

    Antes da Consciência, o Amor: aquilo que não precisa de um eu

    Quando dizemos “eu amo”, quase sempre imaginamos duas coisas: alguém que ama e alguém que é amado.

    Há um “eu” deste lado e um “outro” do outro lado.

    Mas talvez exista uma dimensão do Amor anterior a essa divisão.

    Essa é uma das perguntas que atravessam Antes da Consciência, o Amor: se tudo aquilo que conhecemos aparece na consciência — o corpo, os pensamentos, as lembranças, o mundo e até mesmo a sensação de ser uma pessoa — o que poderia haver antes disso?

    Nisargadatta Maharaj conduzia seus interlocutores repetidamente para a própria sensação de existir: o simples “Eu Sou”, anterior a “eu sou isto” ou “eu sou aquilo”.

    Mas sua investigação não terminava aí.

    Até mesmo o “Eu Sou”, segundo ele, aparece.

    E tudo aquilo que aparece não pode ser o último fundamento.

    Então surge uma pergunta desconcertante:

    O que permanece quando até a consciência desaparece?

    O livro propõe aproximar essa questão da linguagem espiritual de Um Curso em Milagres.

    O Curso afirma que nossa verdadeira realidade não pertence ao mundo da separação. Aquilo que Deus criou permanece em Deus, e a separação nunca alterou a Realidade.

    Nesse ponto, duas linguagens aparentemente muito diferentes começam a se aproximar.

    Nisargadatta fala do Absoluto, anterior à consciência.

    O UCEM fala de Deus, da perfeita Unidade e do Amor que não pode ter oposto.

    Talvez estejamos diante de duas maneiras de apontar para aquilo que não pode realmente ser descrito.

    O Amor antes do relacionamento

    Estamos acostumados a pensar no amor como relação:

    “Eu amo minha esposa.”

    “Eu amo meu filho.”

    “Eu amo Jesus.”

    “Eu amo Deus.”

    Tudo isso possui profundo valor no nível da experiência humana.

    Mas existe uma pergunta ainda mais radical:

    E se o Amor não começar quando alguém ama alguma coisa?

    E se o Amor for anterior ao próprio “alguém”?

    Nesse caso, amar não seria fundamentalmente uma ação realizada pelo indivíduo.

    Seria aquilo que resta quando a separação entre indivíduo e indivíduo deixa de parecer absoluta.

    Enquanto existe a pessoa, o amor pode aparecer como carinho, cuidado, perdão, compaixão e proximidade.

    Mas em sua origem talvez o Amor não pertença à pessoa.

    A pessoa acontece dentro dele.

    O ego diz: “Eu amo”

    O ego precisa de posições.

    Eu e você.

    Meu e seu.

    Ganhar e perder.

    Ser aceito e ser rejeitado.

    Ter e não ter.

    Até o amor pode ser transformado em posse:

    “Você é meu.”

    “Preciso que você me ame.”

    “Sem você não consigo ser feliz.”

    O amor então se mistura com medo.

    E onde existe medo de perder, existe implicitamente a crença de que algo realmente pode nos faltar.

    O UCEM procura desfazer exatamente essa crença.

    O Amor verdadeiro não completa uma falta.

    Ele revela que a falta nunca pertenceu à nossa realidade.

    Por isso o perdão ocupa um lugar tão central no Curso.

    Perdoar não significa simplesmente ser bondoso com outra pessoa.

    Significa começar a perceber que a separação que parecia absoluta talvez nunca tenha ocorrido na Realidade.

    Antes de ser alguém

    Enquanto acredito ser apenas esta biografia, preciso defender minha história.

    Meu passado.

    Minha imagem.

    Minhas opiniões.

    Minhas feridas.

    Minhas conquistas.

    Meu corpo.

    Mas antes de tudo isso existe o simples fato de ser.

    E talvez seja justamente quando a compulsão de sustentar a pessoa começa a diminuir que algo muito simples se revela.

    Não uma experiência espetacular.

    Não uma iluminação cinematográfica.

    Não uma voz dizendo que finalmente chegamos.

    Apenas uma espécie de silêncio.

    E nesse silêncio talvez descubramos algo extraordinário:

    o Amor não precisava ser produzido.

    Ele estava encoberto pelo esforço constante de sermos alguém separado.

    Jesus e o desaparecimento da distância

    Quando Jesus nos convida a amar o próximo, podemos compreender esse ensinamento em muitos níveis.

    No nível mais profundo, porém, talvez amar o próximo seja reconhecer que aquilo que considerávamos totalmente “outro” nunca esteve verdadeiramente separado de nós.

    Não porque os corpos sejam um.

    Os corpos continuam diferentes.

    As personalidades continuam diferentes.

    As histórias continuam diferentes.

    Mas aquilo que somos em Deus não conhece separação.

    Por isso o Amor não precisa destruir as diferenças do mundo.

    Ele apenas deixa de confundi-las com a Verdade.

    Talvez o Amor seja o que resta

    A mente pergunta:

    “O que existe antes da consciência?”

    E espera uma resposta.

    Uma definição.

    Um conceito.

    Mas qualquer resposta que apareça já apareceu na consciência.

    Talvez seja por isso que os grandes ensinamentos espirituais terminem muitas vezes diante do silêncio.

    Não porque nada exista ali.

    Mas porque aquilo que é anterior às palavras não pode caber nelas.

    O livro Antes da Consciência, o Amor parte justamente dessa fronteira.

    Nisargadatta aponta para além do “Eu Sou”.

    O UCEM aponta para além do sonho da separação.

    Jesus aponta para um Reino que não é deste mundo.

    E talvez, no limite de todos esses caminhos, permaneça uma única Realidade impossível de possuir ou explicar.

    Podemos chamá-la de Absoluto.

    Podemos chamá-la de Deus.

    Podemos simplesmente chamá-la de Amor.

    Não o amor que alguém possui.

    Mas o Amor que permanece quando já não precisamos ser alguém para existir.

  • O observador é o observado: onde nasce o conflito

    O observador é o observado: onde nasce o conflito

    Jiddu Krishnamurti repetiu durante décadas uma frase aparentemente estranha:

    “O observador é o observado.”

    À primeira vista parece apenas um jogo de palavras.

    Mas tente observar uma coisa muito simples.

    Você está com raiva.

    Imediatamente surge a sensação de que existem duas coisas:

    eu, de um lado;

    a minha raiva, do outro.

    Então começa o trabalho:

    “Preciso controlar esta raiva.”

    “Preciso compreender por que estou assim.”

    “Não deveria sentir isso.”

    “Tenho que me livrar disso.”

    Nesse momento já existe conflito.

    Mas será que havia realmente duas coisas desde o início?

    Onde está aquele que observa a raiva?

    Olhe com cuidado.

    Quando a raiva está acontecendo, existe realmente uma pessoa separada dela, observando-a à distância?

    Ou existe simplesmente aquele movimento — tensão, calor, pensamentos, impulso — e só depois a mente diz:

    “Eu estou com raiva.”

    O nome cria uma divisão.

    De um lado aparece o “eu”.

    Do outro aparece aquilo que o “eu” pretende controlar.

    Krishnamurti percebeu algo extraordinariamente simples: muitas vezes o próprio observador faz parte daquilo que está observando.

    Ele não está fora do problema.

    Ele é parte do mesmo movimento.

    O comentário alimenta aquilo que queremos eliminar

    Imagine o barulho insistente de uma obra na casa vizinha.

    O som acontece.

    Depois aparece a irritação.

    E logo começa o comentário:

    “Que inferno.”

    “Isso não vai acabar nunca?”

    “Eu precisava justamente de silêncio hoje.”

    “Como alguém consegue ser tão inconveniente?”

    Repare que, a cada nova frase, a irritação ganha combustível.

    Então experimente apenas perceber a irritação sem imediatamente transformá-la em um problema que “você” precisa resolver.

    Não tente expulsá-la.

    Não diga que ela é errada.

    Não tente tornar-se uma pessoa espiritual que não se irrita.

    Apenas olhe.

    Nos pequenos momentos em que o comentário cessa, algo curioso pode acontecer: a irritação perde parte de sua força.

    Não porque você venceu a raiva.

    Mas porque talvez fosse justamente a luta contra ela que a estivesse alimentando.

    O pensador é o pensamento

    A mesma observação vale para os pensamentos.

    Você se lembra de uma conversa desagradável.

    Horas depois continua pensando:

    “Eu não deveria ter dito aquilo.”

    “Ele deve estar pensando mal de mim.”

    “Por que eu sempre faço isso?”

    A sensação é de que existe alguém — “eu” — preso aos próprios pensamentos.

    Mas onde está esse “eu” separado?

    Talvez exista apenas pensamento acontecendo.

    E, dentro desse movimento, aparece também o pensamento:

    “Eu sou aquele que está pensando.”

    Isso muda radicalmente a pergunta.

    Em vez de:

    “Como posso controlar meus pensamentos?”

    surge:

    “Existe realmente alguém separado deles para controlá-los?”

    A fábrica do conflito

    Se existe um “eu” de um lado e um problema do outro, a vida interior transforma-se numa obra interminável.

    Há sempre alguma coisa para corrigir.

    Uma emoção a eliminar.

    Um pensamento a controlar.

    Um medo a superar.

    Uma personalidade a aperfeiçoar.

    Um estado espiritual a alcançar.

    O presente torna-se apenas uma preparação para um futuro em que finalmente estaremos bem.

    Mas esse futuro nunca chega, porque aquele que tenta chegar lá é recriado pelo próprio conflito.

    Há sempre um novo problema e, portanto, um novo observador encarregado de solucioná-lo.

    E o que isso tem a ver com o Amor?

    Muito.

    Porque também imaginamos o amor como uma ponte entre duas entidades separadas.

    “Eu amo você.”

    Há um “eu”.

    Há um “você”.

    E existe uma distância que o amor deverá atravessar.

    Mas se a separação psicológica entre observador e observado é, em parte, fabricada pela mente, talvez grande parte daquilo que chamamos de amor esteja tentando resolver uma distância que nós mesmos ajudamos a criar.

    Daí nasce uma possibilidade muito diferente de Amor.

    Não o amor como uma emoção viajando de uma pessoa para outra.

    Mas o Amor como aquilo que permanece quando a divisão diminui.

    Quando, por um instante, você olha para outra pessoa sem imediatamente compará-la, julgá-la, classificá-la ou transformá-la numa imagem construída pela memória.

    Nesse instante não existe tanta distância.

    E talvez seja exatamente aí que o Amor começa a aparecer.

    Nisargadatta chega por outro caminho

    Nisargadatta Maharaj realiza uma investigação semelhante, embora use uma linguagem diferente.

    Ele pergunta:

    Quem é esse “eu” que afirma estar vivendo tudo isso?

    Corpo?

    Pensamento?

    Memória?

    Consciência?

    Cada resposta observada transforma-se novamente em algo percebido.

    E aquilo que pode ser percebido não pode ser o conhecedor último.

    Krishnamurti desmonta a divisão observando o movimento psicológico.

    Nisargadatta desmonta a identidade perguntando quem é o observador.

    Os caminhos parecem diferentes, mas em determinado ponto aproximam-se.

    Um pergunta:

    Existe realmente um observador separado daquilo que observa?

    O outro pergunta:

    Quem é você antes de tudo aquilo que pode observar?

    Talvez não seja necessário vencer a mente

    Essa é talvez a consequência mais libertadora.

    Você não precisa transformar sua mente numa inimiga.

    Não precisa destruir pensamentos.

    Não precisa lutar contra sentimentos.

    Não precisa fabricar uma versão espiritualmente melhor de si mesmo.

    Pode simplesmente começar a observar quando a divisão acontece.

    A irritação surge.

    Depois surge:

    “Eu não deveria estar irritado.”

    O medo surge.

    Depois:

    “Eu preciso acabar com este medo.”

    O pensamento surge.

    Depois:

    “Por que eu penso tanto?”

    Nesse segundo movimento nasce o conflito.

    E talvez o primeiro passo não seja resolver o conflito.

    Talvez seja apenas enxergar como ele é criado.

    Krishnamurti não dizia:

    “Acredite em mim.”

    Dizia, essencialmente:

    Olhe.

    Veja se isso acontece em você.

    Porque, se o observador realmente não estiver separado do observado, talvez a paz não esteja no fim de uma longa batalha interior.

    Talvez ela comece exatamente quando percebemos que nunca houve dois combatentes.

  • O Amor que não pode desaparecer

    O Amor que não pode desaparecer

    Quando dizemos “amor”, quase sempre estamos falando de alguma coisa que sentimos.

    Amamos alguém. Sentimos ternura, proximidade, afeição, desejo de cuidar. Em determinados momentos esse sentimento pode ser intenso; em outros, quase desaparecer. Podemos amar hoje e amanhã estar irritados, ressentidos ou decepcionados.

    Mas existe uma pergunta mais profunda:

    Se o amor pode desaparecer, aquilo que desapareceu era realmente o Amor?

    Talvez fosse uma experiência de amor.

    Uma experiência acontece conosco. Ela começa, dura algum tempo e termina. Pode ser maravilhosa, transformadora e verdadeira enquanto experiência — mas continua pertencendo ao tempo.

    O livro Antes da Consciência, o Amor propõe uma distinção radical: o Amor, em seu sentido mais profundo, não é simplesmente um sentimento que alguém possui.

    Ele não começa quando sentimos alguma coisa.

    Ele não termina quando deixamos de sentir.

    Ele não depende de sermos correspondidos.

    Ele não aumenta quando somos amados e não diminui quando somos rejeitados.

    O amor humano faz contas

    Grande parte daquilo que chamamos de amor funciona através de uma troca quase invisível.

    “Eu amo você enquanto você me ama.”

    “Eu faço por você e espero que você reconheça.”

    “Eu lhe dei tanto; por que você não faz o mesmo por mim?”

    Nem sempre dizemos essas frases. Muitas vezes nem percebemos que elas estão presentes.

    Mas basta alguém não agradecer, não responder como esperávamos ou deixar de corresponder ao que fizemos para surgir uma pequena mágoa.

    E essa mágoa revela que havia uma conta.

    O Amor, porém, não mantém contabilidade.

    Não porque seja extremamente generoso, mas porque não existe nele a sensação de perda.

    Ele dá sem ficar menor.

    É como uma luz que ilumina sem perder luminosidade.

    Deus não ama você como uma pessoa ama outra

    Isso também muda profundamente a ideia que fazemos de Deus.

    Costumamos imaginar Deus como uma pessoa infinitamente maior do que nós: alguém que olha, julga, aprova, desaprova, recompensa e eventualmente perdoa.

    Mas talvez estejamos apenas projetando no infinito a estrutura psicológica humana.

    Se Deus é realmente Absoluto, Ele não pode ser alguém separado de nós olhando-nos de fora.

    E se Deus é Amor, esse Amor não pode depender de nossa conduta para existir.

    Você não pode aumentar o Amor de Deus sendo bom.

    Também não pode diminuí-lo errando.

    Aquilo que é absoluto não pode ser ameaçado por aquilo que acontece no tempo.

    Por isso surge uma ideia surpreendente:

    Deus não precisa perdoar você porque Deus jamais o condenou.

    O perdão é necessário dentro de nossa experiência de separação, onde julgamos uns aos outros e a nós mesmos.

    Mas no Amor perfeito não existe uma contabilidade anterior que precise ser apagada.

    Antes da pessoa

    Há ainda algo mais profundo.

    Todas as manhãs, ao despertar, primeiro existe a simples sensação de existir. Depois aparecem o nome, a história, os problemas, os compromissos e aquilo que chamamos de “eu”.

    Primeiro: eu sou.

    Depois: “eu sou esta pessoa”.

    O livro nos convida a olhar ainda mais fundo.

    Antes mesmo dessa consciência que diz “eu sou”, o que há?

    Não podemos transformá-lo em objeto porque qualquer objeto já aparece dentro da consciência.

    Podemos apenas apontar.

    Nisargadatta chamou isso de Absoluto.

    A tradição religiosa chama de Deus.

    E o livro propõe uma terceira palavra:

    Amor.

    Não três coisas.

    Três nomes apontando para aquilo que nenhuma palavra consegue conter.

    Talvez nunca tenhamos estado separados do Amor

    Nossa experiência cotidiana parece dizer o contrário.

    Sentimo-nos indivíduos separados procurando amor no mundo: no companheiro, nos filhos, nos amigos, no reconhecimento, na religião.

    E passamos grande parte da vida tentando conseguir do lado de fora aquilo que sentimos faltar dentro.

    Mas talvez essa procura já contenha o equívoco.

    Talvez procuremos Amor porque acreditamos ter saído dele.

    Talvez a verdadeira descoberta não seja encontrar finalmente alguém ou alguma experiência capaz de nos completar.

    Talvez seja perceber que aquilo que somos em profundidade nunca esteve separado daquilo que procurávamos.

    O Amor não seria então uma emoção extraordinária que precisamos alcançar.

    Seria aquilo que permanece quando todas as condições desaparecem.

    Sem cobrança.

    Sem preferência.

    Sem medida.

    Sem alguém de um lado tentando alcançar alguém do outro.

    E talvez seja por isso que as palavras mais simples continuam sendo também as mais difíceis de compreender:

    Deus é Amor.

  • Conheça “Antes da Consciência, o Amor”

    Conheça “Antes da Consciência, o Amor”

    E se o Absoluto de Nisargadatta e o Deus de Jesus apontassem para a mesma Realidade?

    Antes da Consciência, o Amor propõe uma aproximação entre Nisargadatta Maharaj, o Advaita e a visão espiritual de Um Curso em Milagres.

    Uma reflexão sobre consciência, identidade, perdão e sobre aquilo que permanece quando deixamos de nos identificar apenas com a pessoa que acreditamos ser.

    📖 Conheça o livro e saiba mais.